A Fé E A Praça Publica

Joseph Lieberman
25 de Outubro de 2011

Na história americana, essa  séria e sublime combinação de religião e democracia tem sido uma força para um grande bem. Alguns dos movimentos de consciência mais importantes de nossa história surgiram das convicções de pessoas religiosas e usaram a linguagem e a liturgia da fé para construir o apoio popular.

Muito obrigado, Presidente Samuelson, por essa apresentação. E obrigado a todos pela calorosa recepção. É ótimo estar aqui neste belo e histórico campus da Universidade Brigham Young. Devo dizer, Presidente Samuelson, que ao ouvir sua apresentação, que foi muito generosa, lembrei de uma ocasião, alguns anos atrás, em Washington, DC, quando o ex-secretário de Estado Henry Kissinger foi o orador principal.

O presidente da reunião levantou-se no momento em que Kissinger começaria a falar e disse: "Henry Kissinger realmente não precisa de apresentação, então eu lhe dou a palavra, Dr. Henry Kissinger".

Kissinger se levantou e disse com sua voz inimitável: "Provavelmente seja verdade que eu não precise de uma apresentação, mas você sabe, que também é verdade, que eu gosto de uma boa apresentação".

Presidente Samuelson, foi uma ótima apresentação, de um grande homem que me honrou com um comentário que aparece na frente do meu livro O Presente do Descanso e que tem feito um trabalho tão extraordinário aqui na BYU. Tenho a maior admiração pelo trabalho desta universidade em educar mentes, enobrecer espíritos e inspirar em seus alunos um compromisso - um compromisso da vida real - com palavras gravadas em uma pedra na entrada deste grande campus: “Entre para aprender; saia para servir." Eu voltarei a isso.

Gostaria agora de agradecer pessoalmente ao Élder L. Tom Perry e ao Élder Quentin L. Cook, do Quórum dos Doze Apóstolos, por estarem aqui nesta manhã e por sua liderança em A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Estou verdadeiramente honrado pela presença deles e muito grato pela oportunidade que tivemos de conversar por alguns momentos antes do início desta palestra. É a fé da Igreja que inspirou, informou e energizou esta grande universidade e as gerações bem sucedidas de seus graduados.

Um Espírito Ecumênico

O Espírito de Deus preenche este campus, e com isso posso dizer hoje que sinto um espírito ecumênico. Sinto esse espírito ecumênico tão profundamente que vou me aventurar e correr o risco de contar uma piada - uma piada ecumênica. Talvez alguns de vocês já a tenham ouvido; se não tiverem, espero que gostem.

Esta é a história do dia em que o rabino-chefe em Jerusalém chamou o papa no Vaticano e disse: “Sua Santidade, tenho uma boa e uma má notícia para contar. Qual você gostaria de ouvir primeiro?”

O papa disse ao rabino-chefe: "Gostaria de ouvir a boa notícia primeiro."

Então o rabino disse ao papa: "Bem, aqui vai a boa notícia: posso dizer, com certeza, que o Salvador virá à Terra amanhã". (Agora, temos uma pequena disputa doutrinária sobre se essa era a Primeira ou a Segunda Vinda, mas poderemos resolver isso.)

Então o papa disse: “Essa não é apenas uma boa notícia; essa é a melhor notícia. Essa é a notícia que todos esperávamos ouvir. Qual seria a má notícia?”

"Bem", disse o rabino-chefe, "aparentemente Ele está indo para Salt Lake City".

Obrigado por rirem. Sinto uma conexão especial com a fé mórmon e com a BYU por causa dos princípios centrais que esta universidade defende, que estão ao mesmo tempo enraizados na tradição da fé mórmon, mas que também são claramente compartilhados por muitos americanos e, eu diria, certamente que grande parte dos judeus americanos. Ao longo da minha vida, fui abençoado por conviver e estar junto de pessoas de crenças diferentes. Eu senti isso em minha vida com os mórmons que tive o privilégio de conhecer, ter como amigos ou trabalhar. Pessoas de fé compartilham muito, começando com nossa gratidão pelo o que nos foi dado - primeiro e antes de tudo por nossas vidas.

Acreditamos no que a Bíblia nos diz como também na Declaração de Independência. A Bíblia fala claramente que não estamos aqui por acidente, mas por causa de um ato divino e bondoso de criação. E como a declaração escrita por homens de fé, fala que cada um de nós é um filho de Deus e, como tal, todos temos direitos intransferíveis, por nascimento, à “Vida, Liberdade e a busca pela Felicidade." Acreditamos que cada um de nós, com esses direitos, também possui responsabilidades que estão articuladas em nossas crenças. E acreditamos que cada um de nós tem um destino e que esta nossa grande nação tem um destino.

É por isso que me sinto tão contente por terem me convidado para falar esta manhã sobre fé em praça pública - fé na praça pública americana. É um assunto sobre o qual pensei muito, escrevi pouco e vivi muito do que penso ser uma maneira clássica e maravilhosamente americana. Minha fé judaica é o centro da minha vida. Fui criado em uma família religiosa. Concedida à mim por meus pais e moldada por meus rabinos, minha fé me proporcionou um fundamento, uma ordem e um senso de propósito em minha vida. Isso tem muito a ver com a maneira de como me esforço para encontrar uma maneira construtiva todos os dias, tanto pessoal como profissionalmente, de maneiras grandes e pequenas.

O Dia de Descanso

Uma das observâncias centrais da minha fé e também da fé mórmon é a observância do Dia do Senhor: "Lembra-te do dia do sábado", como diz o mandamento, "para o santificar" (Êxodo 20: 8). Como o Presidente Samuelson teve a gentileza de dizer, minha observância do sábado é o assunto do livro que escrevi, intitulado O Presente do Descanso: Redescobrindo a Beleza do Sábado.

Algumas pessoas me perguntaram, “Por que um senador dos Estados Unidos escreveria um livro sobre um assunto religioso como o Dia de Descanso?”.

É uma boa pergunta. Este livro é muito diferente de tudo o que já escrevi. Penso que, embora as pessoas em Connecticut certamente saibam que sou observador do sábado - e talvez pessoas de todo o país, por causa da minha campanha vice-presidencial em 2000, também saibam que sou observador do sábado -, nunca me pediram para falar muito mais do que isso. Acho que as pessoas provavelmente sabem o que eu não faço entre o pôr do sol de sexta-feira e o pôr do sol de sábado  -  eu não trabalho a menos que haja algum tipo de emergência - mas eles não sabem o que eu faço. Então, decidi escrever este livro para tentar compartilhar o que chamo de o presente do descanso do sábado.

É interessante que o Dia do Senhor seja observado por todos nós como resultado de um mandamento na Bíblia que Deus deu a Moisés. Embora tenha começado como uma diretiva, sei que muitos de vocês que observam o Dia do Senhor, como eu e minha família, agora o experimentam como um presente. No Talmude, um rabino de séculos e séculos atrás imaginou uma conversa entre Deus e Moisés, na qual Deus disse: “Moisés, no meu armazém, tenho um presente muito especial para você. É chamado de Dia do Senhor” (parafraseado de New Edition of the Babylonian Talmud, ed. Michael L. Rodkinson, vol. 1, Tract Sabbath [Nova York: New Amsterdam Book Company, 1896], 18).

Decidi escrever este livro porque acho que a observância do Dia do Senhor tem diminuído em nosso país ao longo da minha vida, e como resultado, o país perdeu algo. Acredito que esse dia - essa lei, com milhares de anos - é provavelmente mais relevante e necessário hoje do que foi antes. E é relevante não apenas no sentido religioso, mas no sentido de qualidade de vida, porque estamos todos trabalhando duro e nunca deixamos o trabalho de lado, a menos que escolhamos fazê-lo. Sempre temos nossos celulares, nossos BlackBerries (uma linha de smartphones e tablets projetados para fins corporativos), iPads ou iPhones conosco. Este livro é uma tentativa de convidar o leitor a se juntar a mim, minha esposa e minha família, durante um típico Dia do Senhor, observado de acordo com uma prática judaica tradicional.

Escrevi este livro em parte para judeus que podem não estar observando o Dia do Senhor tanto quanto eu gostaria, mas realmente o escrevi para pessoas de todas as religiões - e mesmo para pessoas sem nenhuma fé em particular - esperando que eles decidam aceitar o presente por completo ou em parte e trazê-lo para suas vidas.

Em diferentes momentos da minha carreira, minha observância do Dia do Senhor se cruzou com minha vida política em responsabilidade governamental, porque difere das regras pelas quais a maioria das pessoas vive. Quando fui candidato pela primeira vez na década de 1970 e tive a sorte de me tornar senador estadual em Connecticut, tomei uma decisão antecipada de que nunca me envolveria em política no Dia do Senhor. Se eu ocupasse um cargo que tivesse responsabilidades governamentais que eu não pudesse delegar, como votar como senador ou ir a uma reunião sobre uma crise de segurança nacional, eu faria isso. Meus rabinos me instruíram que, quando a vida se cruza com a lei religiosa, a vida deve triunfar, particularmente no sábado, que é, afinal um dia em que estamos honrando a criação da vida, por Deus. Quão inconsistente seria se alguém tivesse a oportunidade de proteger a vida - proteger a segurança - e não fizesse isso em observância de uma lei religiosa que visa comemorar o Dia do Senhor.

No começo, quando eu era senador estadual e pessoas me convidavam para um evento político ou um jantar de reconhecimento no Dia do Senhor, eu falava não. Às vezes eles ficavam intrigados; outras vezes eles ficavam simplesmente bravos, e eu  precisava me explicar. Mas posso lhes dizer que, com o tempo, como eles perceberam que eu não poderia ir por uma questão de observância religiosa e crença (e que eu estava fazendo isso de forma muito consistente), eles aceitaram minha resposta e a respeitaram. Eu era diferente da maioria deles nessas práticas, mas no espírito, que eu acho que é fundamentalmente americano, essas diferenças não os impediram de respeitarem minhas crenças, apoiarem minha carreira e, em certo sentido, até sentirem esse vínculo inter religioso. Embora fossemos de diferentes tipos de fés, estávamos unidos em um clássico estilo americano por uma crença compartilhada em Deus e tudo o que provém daí.

América, uma Iniciativa Baseada na Fé

Estamos agora no início de uma campanha presidencial em que discussões e debates sobre a relação entre política e religião - sobre o espaço apropriado da fé na praça pública - já começaram a desempenhar um papel de destaque.

Essas não são perguntas novas; elas são muito velhas. Eles voltam aos fundadores do nosso país, que escreveram a Declaração de Independência e posteriormente, a Constituição. As palavras de nossos fundadores são relevantes porque nos lembram que desde o início da América somos uma nação que se definiu não tanto por nossas fronteiras geográficas, mas por nossos valores nacionais. Um desses valores era e é uma crença compartilhada pela maioria dos americanos de que existe um Deus. Sei que isso pode ser controverso para alguns, porque, embora tenhamos essa crença, respeitamos os direitos daqueles que não compartilham essa crença. A nova nação dos Estados Unidos da América foi criada "para garantir esses direitos" - os direitos mencionados no segundo parágrafo do nosso primeiro documento, os direitos à "Vida, Liberdade e busca da Felicidade", que são o legado do nosso Criador. Eu sempre gosto de dizer que a verdade é que a América tem sido, desde o início, uma iniciativa baseada na fé, e qualquer que procure separar a fé da praça pública da América está fazendo algo antinatural e, em última análise, ruim para o nosso país.

Nossos fundadores eram todos homens de um caráter cristão específico, principalmente protestante, então vocês devem dar a eles um crédito extraordinário, pois quando se trata de religião, os documentos notáveis que escreveram e adotaram garantiram liberdade religiosa para todos - não apenas para as pessoas que compartilhavam a fé deles. Eles proibiram o estabelecimento de qualquer religião, uma religião oficial. Eles devem ter sido tentados a terem uma religião oficial e ainda oferecer aos outros liberdade de religião, mas não o fizeram - mesmo porque os cristãos foram, e são hoje, a grande maioria deste país.

Os fundadores eram pessoas notáveis. A Primeira Emenda de nossa constituição proíbe o “estabelecimento” de uma religião oficial e garante a todo americano o direito de adorar (ou, como eu disse, não adorar) como ele ou ela escolherem. Fiquei encantado um dia com o pensamento de que um dos direitos à liberdade que nosso Criador nos investiu seja o direito de não acreditar no Criador. E embora isso não seja o direito que muitos americanos exercem, é uma medida da amplitude da visão dos fundadores para que fosse assim.

No artigo VI da Constituição dos Estados Unidos, os fundadores fizeram outra coisa bastante específica para garantir essa visão: eles protegiam todos os americanos da discriminação religiosa na política, proibindo o que chamavam de testes religiosos para cargos públicos.

A verdade é que em muitas das colônias originais dos Estados Unidos havia leis dizendo que você tinha que ser parte de uma denominação cristã específica para concorrer a um cargo público. Mas, notavelmente, os fundadores queriam superar isso.

As gerações seguintes foram inspiradas por essa visão fundamental e se esforçaram para tornar realidade sua promessa - a promessa do que chamo de liberdade religiosa, não liberdade da religião. 

Nossa história constitucional única criou, por sua vez, uma praça pública americana única, na qual não há estabelecimento de uma religião, mas liberdade para todas as religiões. Existe a presença de religião em nossa vida pública. As maiores leis que são escritas, incluindo nossa constituição, são aquelas tão amplamente aceitas pelo povo de uma nação como a nossa que elas se tornam não apenas leis que nos sentimos compelidos a seguir, porque estão na lei, mas fazem parte da fibra do país; elas se tornam parte do nosso sistema nacional de ética. O mesmo acontece com a liberdade de religião.

Alexis de Tocqueville, o famoso francês estudante da América, notou a excepcional religiosidade dos americanos em seu relato definitivo sobre os Estados Unidos, escrito no século XIX. Ele escreveu que nunca houve um país em que viu que "a religião mantém uma influência maior sobre as almas dos homens [eu acrescentaria, agora, também das mulheres] do que na América". Ele acrescentou que "não pode haver maior prova de sua utilidade e de conformidade com a natureza humana do que de sua influencia poderosamente sentida sobre a nação mais iluminada e livre da terra" (Democracia na América, trad. Henry Reeve, Vol. 1 [Nova York: The Century Co., 1898], 388).

Eu ainda considero uma verdade hoje. Vi uma recente pesquisa de opinião pública independente, que dizia que mais de 90% dos americanos dizem acreditar em Deus. Sempre estou  determinado  a ver o quão à frente dos políticos Deus está nessas disputas de pesquisas. E a maioria dos americanos diz que frequenta regularmente uma casa de adoração.

Alexis de Tocqueville também observou que embora os americanos estivessem divididos em muitas seitas religiosas diferentes, como ele as chamava, "todos olham para sua religião da mesma maneira" (Democracia na América: Parte 2, Influência Social da Democracia, trad. Henry Reeve [Nova York: J. & HG Langley, 1840], 27). Ele reconheceu que, embora os americanos sigam muitos sistemas de crenças diferentes, existem valores universais que unem a todos nós , e isso é uma segunda consequência do compromisso exclusivo de nosso país com a liberdade religiosa, mas não com a liberdade da religião.

Fé na Praça Pública Americana

Na América, a liberdade religiosa na praça pública deu origem ao desenvolvimento de um conjunto de valores religiosos compartilhados que eram obviamente evidentes no século XIX e, acho que, em nossos melhores momentos, continuam sendo hoje. O presidente Abraham Lincoln chamou isso de "religião política" da América (Abraham Lincoln: Seus Discursos e Escritos, ed. Roy P. Basler [Nova York: The World Publishing Company, 1969], p. 81), e o poeta Walt Whitman elogiou o que chamou de “uma democracia religiosa sublime e séria” na América (Complete Prose Works [Filadélfia: David McKay, 1897], p.244).

Na história americana, essa combinação sublime e séria de religião e democracia tem sido, em geral, uma força para um bem maior. Alguns dos movimentos de consciência mais importantes de nossa história surgiram das convicções de pessoas religiosas e usaram a linguagem e a liturgia da fé para construir apoio popular. Penso no movimento abolicionista do século XIX que levou ao fim do mal da escravidão. Foi esse mesmo espírito que motivou grande parte do movimento sufragista no início do século XX que lutou e conquistou direitos para as mulheres em nosso país. E foi esse mesmo espírito que tive o privilégio de testemunhar pessoalmente quando era estudante universitário nos anos sessenta e participei do movimento de direitos civis liderado por uma figura religiosa, o Dr. Martin Luther King, que invocou a religião política da América, como Lincoln chamava isso, no avanço dessa causa nobre.

Eu próprio fui inspirado a ingressar nesse movimento por causa dos valores que ele representava, os quais eram profundamente enraizados em minha própria fé e história religiosa: os valores da igualdade, do serviço, da tolerância e do respeito à lei.

Foi também quando eu estava na faculdade que outra barreira importante na América foi quebrada. No outono do meu primeiro ano, um católico romano, John F. Kennedy, foi eleito para a presidência dos Estados Unidos pela primeira vez na história americana. Vou lhes dizer que, como um jovem judeu-americano (embora não estivesse pensando em uma carreira política, acredite, aos dezoito anos), quando ele venceu, senti de alguma forma que as portas se abriram para mim, que de alguma maneira um horizonte se expandira para mim e para outros que eram de crenças que não eram os da maioria, de diferentes raças ou para outras nacionalidades. Eu não sabia como ou onde isso poderia acontecer, mas me senti inspirado e fortalecido pela eleição de Kennedy. Naquele momento, eu certamente ainda não estava sonhando em ser senador e nunca poderia imaginar o que aconteceria comigo em 2000.

Em 2000, o vice-presidente Al Gore me deu o privilégio de ser o primeiro judeu-americano a ser nomeado para cargo nacional quando me pediu para ser seu vice-presidente de campanha. Naquele ano, experimentei pessoalmente muito do que descrevi - a generosidade do povo americano de justiça e aceitação da diversidade religiosa.

O reverendo Jesse Jackson disse no dia em que fui nomeado: “Cada vez que uma barreira cai para uma pessoa, às portas da oportunidade se abrem ainda mais para todos os outros americanos” (“Lieberman ao ingressar no partido democrático: “ Sinto-me humilde e honrado'" New York Times, 9 de agosto de 2000, A16).

Eu senti aquela sensação calorosa de progresso compartilhado ao longo da campanha. Também me senti livre - como alguém notou recentemente, mais livre do que Kennedy em alguns aspectos - de falar sobre minha religião e o papel central da fé em minha vida. Escrevi sobre tudo isso no meu livro, mas quero compartilhar algumas anedotas do meu livro com vocês que fazem um argumento maior, espero, sobre o papel construtivo da fé na praça pública da América.

Havia um agente do serviço secreto que viajou comigo durante essa campanha. Ele já havia trabalhado em várias campanhas nacionais antes e me disse um dia que nunca havia ouvido tantas pessoas dizerem a um candidato: "Deus te abençoe". Eu pensei sobre isso, e sinceramente acho que é um reflexo dos cristãos americanos me dizendo com essas palavras mágicas:

“Sabemos que você é uma pessoa religiosa. Sabemos que você não tem exatamente a mesma fé ou costume religioso que nós, mas sabemos que compartilhamos uma história comum e estamos felizes por você estar se candidatando."Em outra ocasião, em um exemplo um pouco mais bem-humorado, lembro-me de ter falado com um comício de latino-americano e de ter visto na primeira fila uma mulher que havia criado um cartaz que expressava vividamente esse senso de valores compartilhados e a elevação conjunta da qual estou falando agora. Com duas palavras poderosas que acho que nunca apareceram juntas antes, o cartaz dizia: "Viva Chutzpah!" Isso disse tudo. (“Chutzpah” é uma Palavra iídiche, assimilada dos imigrantes judeus da Europa; significa “atrevimento”, “coragem”, podendo representar também “autoconfiança suprema”).

No final, a indicação de Gore-Lieberman na verdade recebeu mais de meio milhão de votos do que a indicação de Bush-Cheney - algo que gostava de lembrar frequentemente ao presidente George W. Bush e ao vice-presidente Dick Cheney. Acreditem, eu não cito esses números pela pequena questão da recontagem de votos eleitorais da Flórida, mas porque acho que, como esportes, a política acaba se resumindo a números. Portanto, cito esses meio milhão de votos como as melhores - para mim e espero para todos - evidências inspiradoras e inequívocas, de que nossa indicação  foi julgada com base em nossas qualificações e políticas e, definitivamente, não com base em minha religião, porque minha religião é diferente, como eu disse antes.

E ao chegar à próxima seção do que quero dizer, deixem-me descrever algumas das maneiras pelas quais minha religião é diferente. Você sabe que existe um código; existem regras. Existem regras que os rabinos criaram ao longo dos séculos para definir alguns dos princípios básicos da Torá, da Bíblia Hebraica e do Antigo Testamento. Por exemplo, temos regras bastante rígidas para hábitos sobre o que  podemos comer, beber e quando o fazer. Nós judeus praticantes, principalmente mulheres, temos um código de vestuário que devemos seguir. Algo que provavelmente não é conhecido por muitas pessoas que existe até uma prescrição para homens judeus usarem uma roupa de baixo específica. Isto está começando a soar familiar? Temos práticas diferentes. Mas a grande coisa que experimentei em 2000 foi que essas práticas foram deixadas de lado por causa de tudo o que compartilhamos e também por causa de nossos ideais nacionais de liberdade religiosa e por não termos testes religiosos para cargos públicos.

Um Retorno aos Princípios Fundadores Americanos

Nesse ciclo eleitoral presidencial de 2012, fé e política se tornarão novamente uma fonte de controvérsia - primeiro na expressão que alguns deram à sua fé (particularmente o governador Rick Perry e a congressista Michele Bachmann). Algumas pessoas têm um anseio real sobre isso.

Eu não compartilho esse anseio. Um candidato não renuncia à liberdade de religião ou de expressão quando decide concorrer ao cargo. Eles têm o direito, se quiserem, de falarem sobre o papel que a fé desempenha em suas vidas, entendendo que outros (eleitores) têm o direito de decidir, com base nessas expressões, se isso afeta suas visões  sobre os candidatos. Pessoalmente, sempre aprecio a oportunidade de ouvir sobre a fé de um candidato e o que isso significa para eles, porque acho que isso me ajuda a entendê-los melhor como pessoas.

A segunda controvérsia religiosa na campanha de 2012 é, obviamente, próxima à BYU. Dois membros da Igreja de Jesus Cristo estão concorrendo à presidência: o governador Mitt Romney e o governador Jon Huntsman. E um deles, o governador Romney, um ilustre graduado dessa universidade, pode muito bem acabar como candidato republicano.

Nestas campanhas primárias republicanas, e nas eleições gerais, se o governador Romney for indicado, os americanos serão desafiados novamente a serem fiéis aos nossos princípios fundamentais de igualdade de oportunidades e à proibição clara do artigo VI da Constituição de uma prova religiosa sendo aplicada para um cargo público.

Em 1960, quando John F. Kennedy estava concorrendo à presidência, ainda havia um preconceito anticatólico significativo na América. Na véspera da votação, ele falou sobre isso. Suas palavras permanecem bastante relevantes hoje - acho que desta vez mais relevante para o governador Romney e o governador Huntsman, pelo menos com base em algumas das quais  considero serem coisas prejudiciais que foram ditas sobre sua fé e sua relevância para esta campanha. O Presidente Kennedy disse na campanha de 1960:

Se essa eleição for decidida com base em que 40 milhões de americanos [que são católicos] perderam a chance de ser presidente no dia em que foram batizados, então é a nação inteira que estará perdendo, aos olhos dos católicos e dos não-católicos em todo o mundo, aos olhos da história e aos olhos de nosso próprio povo. [“Discurso do senador John F. Kennedy à Associação Ministerial da Grande Houston, 12 de setembro de 1960”; www.jfklibrary.org/Asset-Viewer/ALL6YEBJMEKYGMCntnSCvg.aspx]

E, é claro, o mesmo acontecerá se os americanos julgarem o governador Romney ou o governador Huntsman nas primárias ou eleições gerais com base em sua fé mórmon e não em suas qualidades pessoais e em seus ideais e ideias para o cargo.

Assim como os americanos não permitiram a influência de seus preconceitos ou desconfortos com as diferenças da fé católica romana de Kennedy 1960 - ou até mesmo  com a diferenças de dezesseis anos depois com a fé cristã evangélica de Jimmy Carter  e novamente em 2000 com as diferenças de minha fé judaica  -, também, o governador Romney deve ser julgado, não com base em sua fé, que pode ser diferente para muitos, mas em suas qualidades pessoais, sua liderança, sua experiência e suas ideias para o futuro da América.

Minha experiência pessoal em 2000, que descrevi a vocês hoje, me dá grande confiança de que os eleitores rejeitarão novamente quaisquer testes religiosos sectários e mostrarão seu caráter forte, sua justiça instintiva e sua firme crença nos ideais da Declaração de Independência e a Constituição. E quando o fizerem, outra barreira pode ser quebrada para outro grupo na América. E, assim, as portas da oportunidade se abrirão ainda mais para todos os americanos.

Recuperando o Otimismo Característico Americano

Agora, deixem-me concluir compartilhando apenas mais uma maneira pela qual acredito que a fé na praça pública é profundamente importante, não apenas para a campanha atual, mas para este momento difícil da vida americana: um momento em que milhões de americanos não conseguem encontrar empregos; quando milhões de outros que trabalham estão preocupados se ainda terão seus empregos no próximo ano; quando um número chocante de americanos perdeu o otimismo característico americano no futuro da América; quando muitos outros, uma esmagadora maioria, infelizmente, por razões compreensíveis, perderam a confiança em nosso governo; e quando muitos, aqui em casa e entre nossos inimigos no mundo, acreditam que os Estados Unidos começaram um declínio irreversível.

Na minha opinião, esse pessimismo é absolutamente injustificado - injustificado por fato ou história. Acredito que este século XXI será outro grande século para a América. Mas devemos recuperar a confiança em nós mesmos.

Uma das grandes razões do meu otimismo são os números que citei anteriormente: que mais de 90% do povo americano acredita em Deus e mais da metade dos americanos frequentam regularmente casas de adoração. Agora, por que isso é importante? Para mim é importante - e precisamos nos voltar a isso como povo para conectar nossa fé com nossos sentimentos sobre o futuro nacional - porque a fé geralmente leva à esperança. Os membros da Igreja SUD que eu conheço mostram todos os dias em suas vidas uma fé que leva à esperança e a bons valores e trabalho duro, produzindo resultados surpreendentemente excelentes.

Fé em Deus, amor ao país, senso de unidade e confiança no poder de cada indivíduo - essas são as coisas que guiaram o povo americano em crises maiores do que as que enfrentamos hoje e, tenho certeza, nos impulsionarão a avançar para um lugar melhor se retornarmos a esses valores e os reconhecermos como uma fonte de força nacional. Espero que a presença de fé em praça pública nos permita fazer isso.

A maior fonte de força e esperança dos EUA para o futuro não está na atual política rígida e divisória de Washington. Em vez disso, está na fé e nos valores amplamente compartilhados pelo povo americano e nas razões da unidade e inspiração para servir que muitos de nós encontramos nas diversas casas de adoração que frequentamos neste país. Precisamos que a fé e os valores da América sejam levados a Washington. Chegamos ao Congresso, à Casa Branca e à administração em geral como pessoas de fé. E parece-me que, quando chegamos lá, não agimos como se os princípios de que acabei de falar guiam nossas vidas.

Eu digo a você aqui neste grande centro que a Universidade Brigham Young, há muito, muito tempo, produziu graduados que entenderam tudo isso e espalharam progresso e crescimento por todo o país e, de fato, pelo mundo. Como costumava dizer o velho pôster do tio Sam: Seu país precisa de você agora - e no que você acredita - mais do que nunca. Estou confiante de que, quando vocês saírem desses portões, movidos por sua fé e capacitados pela educação que recebem aqui, seu trabalho e seu serviço ajudarão a tornar a América não apenas melhor, mas a criar a mais perfeita união que sempre desejamos ser.

Agradeço do fundo do coração por esta grande honra e oportunidade de estar com vocês nesta manhã, e rezo com vocês para que Deus abençoe a todos nós e a nosso grande país, agora e no futuro. Muito obrigado, muito obrigado mesmo.

Luisa Andreassa
Cissa Christensen

This peech has been translated by
Luisa Andrezza & Cissa Christensen