Mais Amor, Menos Desprezo

ARTHUR C. BROOKS

Presidente do American Enterprise Institute

Abril 25, 2019 • Devotional

Presidente Worthen, ilustres convidados, pais, amigos e membros dos formandos da Brigham Young University de 2019. Parabéns por este dia importante e obrigado por esta honra incrível. Com esse título honorário, tenho orgulho de dizer que finalmente sou um membro real da comunidade da BYU. Eu tenho que confessar que, até agora, eu apenas personifiquei um membro da comunidade da BYU.

 

Eu sei que isso soa mal, então me deixem explicar. Vários anos atrás, cheguei a este lindo lugar, a BYU, para fazer uma palestra. Meu anfitrião maravilhoso me mandou para casa com várias lembrancinhas, camisetas, canecas, com o logo da BYU. Vocês são ótimos na colocação de produtos.

 

Um dos presentes bem legais que recebi naquele dia foi uma maleta, que tinha o logo da BYU estampado na frente. Nessa época eu realmente precisava de uma maleta nova, mas eu estava hesitante em usá-la por causa do logo. Parecia um pouco estranho, como propaganda enganosa. Veja, eu não sou membro da BYU, nem sou membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sou católico. 

 

A propósito, alguém me disse que sou seu católico favorito, mas acho que vocês dizem isso para todos os católicos. 

 

Quando eu expressei minha hesitação, minha esposa Esther me disse: “Isso é ridículo, use a maleta, ela é linda.

 

Então, eu coloquei minhas coisas nela e fui viajar. Eu viajo o tempo todo. Eu estou nos aeroportos constantemente. E aconteceu algo. Eu notei que as pessoas olhavam para a minha maleta, depois olhavam para mim. Elas tinham um olhar estranho em seu rosto como: “Eu nunca vi um mórmon velho e hipster antes.” (Desculpem-me, santos dos últimos dias). Eu me diverti naquele momento, mas a parte engraçada foi: eu me encontrei mudando de comportamento. Eu estava agindo com maior amor e gentileza do que eu normalmente faria. As pessoas olhavam para a minha maleta e eu queria ajudá-las com suas malas. Eu queria dar dar-lhes o meu lugar na fila, coisas desse tipo. Por quê? Porque eu estava inconscientemente tentando viver de acordo com os altos padrões de bondade da igreja e da  universidade de vocês. Pelo menos, eu não estava ferindo a reputação que vocês conquistaram.

 

E sabem o que mais? Eu até parei de carregar copos de café. E olha que eu amo café, mas eu não queria que as pessoas pensassem que um membro igreja de vocês fosse hipócrita. Eu tinha essa fantasia paranóica de um homem dizendo à esposa: “Eu vi esse cara mórmon no aeroporto pedindo um café com leite no Starbucks, eu sabia que eles eram hipócritas.” Eu não queria isso. 

 

E vocês sabem de mais uma coisa? Aquela maleta me tornou uma pessoa mais feliz, uma pessoa mais amorosa. Eu era a pessoa que eu queria ser. Por quê? Porque eu estava tentando ser como vocês. Então, qual é a lição aqui? Não é que as maletas da BYU tenham propriedades mágicas, mas que o grande testemunho de vocês para o mundo, como membros desta comunidade, é condutor de suas vidas. Nossa nação e mundo precisa disso. Eles precisam mais do que nunca de vocês.

 

Se vocês prestarem atenção na política, televisão ou mídia social, o que vocês veem hoje?

Vocês veem recriminação, reprovação, insultos, sarcasmo. Líderes do mais alto nível do nosso país repreendendo e fazendo chacota daqueles de quem eles discordam. Vocês veem famílias se separando devido às divergências políticas. Vocês veem opositores políticos que se tratam como inimigos. 

 

As pessoas geralmente caracterizam o momento atual nos Estados Unidos como um momento de “raiva”. Se fosse somente essa a verdade. A raiva é uma emoção que ocorre quando queremos mudar o comportamento de alguém e acreditamos que podemos fazê-lo. De acordo com a pesquisa sobre a raiva, embora seja frequentemente percebida como uma emoção negativa, ela tem um propósito social e não é o de afastar os outros. Em vez disso, pretende-se remover elementos problemáticos de um relacionamento e reunir as pessoas novamente. Acredite ou não, não há evidências de que, em um casamento, a raiva esteja relacionada à separação ou ao divórcio. 

 

 Eu sou casado com uma espanhola por 28 anos. O segredo do sucesso das minhas décadas de casamento é a falta de correlação entre a raiva e o divórcio. 

 

O problema meus amigos não é a raiva, é o desprezo. Nas palavras do filósofo do século 19, Arthur Schopenhauer, "o desprezo é a convicção imaculada da inutilidade de outra pessoa".

 O poder destrutivo do desprezo está bem documentado no trabalho do famoso psicólogo social John Gottman, especialista em relacionamentos, que leciona na Universidade de Washington, em Seattle. Ao longo de seu trabalho, Gottman estudou milhares de casais. Os maiores sinais de alerta do divórcio, explica ele, são indicadores de desprezo. Estes incluem sarcasmo, zombaria, humor hostil e, pior de tudo, revirar os olhos. 

 

Tenho filhos adolescentes; Eu vejo muito olho se revirando. Mas ai de vocês, se revirarem os olhos para alguém que vocês amam. Isso é um pequeno ato que diz que “você não vale nada” para aquela pessoa, seu cônjuge, que vocês deveriam amar mais do que qualquer outra. Vocês querem ver se um casal acabará em divórcio, observe-os discutir tópicos pretensiosos e ver se um dos parceiros revira os olhos.

 

E assim como o desprezo pode arruinar um casamento, também pode destruir um país. A América desenvolveu uma “cultura de desprezo”, um hábito de ver pessoas que discordam de nós, não apenas como incorretas ou equivocadas, mas como desprezíveis. 

 

Isso está causando um dano horrível para o nosso país. Desde a eleição de 2016, um em cada seis americanos, parou de conversar com amigos próximos ou familiares por causa de política. Milhões de pessoas estão organizando suas vidas sociais e selecionado notícias e informações para evitar ouvir pontos de vista que diferem dos seus. As polarizações ideológicas estão em níveis mais elevados do que em qualquer outro período desde a Guerra Civil Americana.

 

Ouçam agora as palavras do Presidente da Igreja, Russell M. Nelson, “o ódio entre irmãos e vizinhos reduziu as cidades sagradas a lugares de tristeza”. Ele disse isso em 2002, hoje é ainda mais verdadeiro, não é?

 

Isso está prejudicando mais do que a nossa nação. Lembrem-se que a América é um farol de esperança para o resto do mundo. Somos um exemplo de capitalismo democrático que tirou sozinho 2 bilhões de nossos irmãos e irmãs da pobreza e da fome na última metade do século. Esta é a nação que atraiu vocês, ou seus antepassados, com a promessa de oportunidades iguais, liberdade religiosa e uma boa vida para vocês e seus familiares. Quando a América está despedaçada, nos tornamos incapazes de viver de acordo com o plano, o plano sagrado para nossa nação, que é brilhar uma luz para o resto do mundo.

 

Então, do que precisamos? Alguns dizem que precisamos concordar mais, mas isso está errado. Discordar é bom porque competir é bom. Isso nos torna mais afiados e fortes, seja no esporte, na política, na economia ou no mundo das idéias. Nós não precisamos discordar menos; precisamos discordar melhor. Outras pessoas dizem que precisamos de mais civilização. Mas isso também é errado, porque civilização é um padrão desesperadamente baixo para nós americanos. Imagine se eu lhes disser que minha esposa, Esther, e eu somos civilizados um com o outro, vocês diriam que precisamos de algum tipo aconselhamento. 

 

Se vamos vencer o problema do desprezo, vamos precisar de algo mais radical do que a civilização, algo que fala sobre o verdadeiro desejo do nosso coração. Precisamos do amor, que foi definido por São Tomás de Aquino como: “desejar o bem do outro”. Precisamos de uma nova geração pronta para moldar vidas de amor em meio à cultura do desprezo. Precisamos de jovens que possam viver na cultura das palavras do livro de Helamã: 

E aconteceu que saíram, pregando e anunciando por todas as regiões... E todos os que se convenceram abandonaram suas armas de guerra, bem como seu ódio e as tradições de seus pais. [Helamã 5:50-51]

 

 Ele estava falando de vocês. Não se enganem, isso não é fácil. Isso requer pessoas que não fogem do problema e que não têm medo de se infiltrar na cultura do desprezo, e de pessoas que são capazes de moldar um padrão melhor de valores. Isso requer a habilidade de estar na cultura, mas não fazer parte dela. Quando vocês pensam nisso, é como um trabalho missionário, não é? Os missionários têm o treinamento e a experiência para participar da sociedade sem serem sugados por suas patologias. Eles têm a coragem e força moral necessárias para enfrentar resistência e seguir em frente com a alegria que vem de compartilhar a verdade. 

 

Apenas por curiosidade, vocês conhecem alguém com experiência missionária? Bem, adivinhe, é hora de renovar essa experiência e usá-la de uma maneira totalmente diferente a partir de hoje.

 

Perto da minha casa, tem um Centro de Retiro Católico, onde minha esposa e eu ensinamos aulas de preparação para o casamento para casais que estão noivos. Na capela, há uma placa de aviso na porta, mas não na porta de entrada, e sim na porta de saída para o estacionamento. Está escrito para as pessoas olharem quando estiverem saindo. E diz assim: “Você está entrando em um território de missão”. A mensagem é simples, mas é realmente profunda. Você está aqui porque encontrou o que é bom e verdadeiro, mas você está indo para onde tem pessoas que ainda não sabem o que você descobriu. Você tem o privilégio de compartilhar isso, com alegria e confiança.

 

Essa é uma mensagem para vocês que querem tornar a América e o mundo melhor. Vocês sabem o que nosso mundo precisa: mais amor, menos desprezo. Vocês têm habilidade e treinamento para tornar isso uma realidade. A maioria de vocês foram criados a vida inteira com os valores que eu, magicamente, consegui obter com alguns minutos com minha maleta da BYU. Vocês receberam uma educação, através do trabalho duro, em uma das maiores universidades do mundo. Vocês foram preparados a vida toda para entrar no mundo e fazê-lo um lugar melhor. Esta universidade tem um lema não oficial que diz: “Entre para aprender, saia para servir”. Vocês começam a viver esse lema a partir de hoje, santificar seu trabalho e aprendizado para elevar e reunir nossa grande nação. 

 

Então, senhoras e senhores, formandos da BYU de 2019, oro para que nosso Pai Celestial abençoe o mundo abundantemente através de vocês. Parabéns por essa conquista, e não se esqueçam, agora vocês estão entrando novamente em um território de missão. Deus os abençoe. Deus abençoe a América. Muito obrigado.

Arthur C. Brooks

Arthur C. Brooks,  Presidente do American Enterprise Institute, proferiu este discurso devocional em 25 de Abril de 2019.

Rimardo Matos
Rimardo Matos